Dia de São Pega

Escrevo enquanto o sol ainda espia das bordas do horizonte, aos poucos, bruxuleiam luzes a salpicar janelas entreabertas, o sono urbano desfaz suas amarras, os primeiros carros, vultos pedestres, um cachorro enrodilhado aos pés do banco da praça, todinha esbranquiçada, sobre um véu de sereno da madrugada, faz frio, o céu caiou de roxo e lilás, não há nuvens, uma brisa em vórtice desperta sacolas plásticas e embala as copas das árvores em seu balé de alvorada, dormem ainda as crianças e os justos, há um demônio de motocicleta pelas ruas, dispensa a máscara protetora, seduz nossos parentes, ingênuos ou adoradores?, já somos quase quinhentas mil saudades, o pavor espreita agachado na sombra de uma lata de lixo, ri sem um dente na boca, é preciso girar a roda da economia, dizem os entendidos, o sol, enfim, boceja com hálito quente e derrama a sua cabeleira loira sobre as casas, ruas e  parques, é dia de São Pega, beijo as meninas, engulo o café sempre igual, a chave na porta, o sinal da cruz, o rosto coberto, meus olhos pujantes, no peito, o coração diminuto, coragem e uma esperança imensa. Amanhã vai ser outro dia…  

Seleção Tiê-sangue


No meu delírio comunista futebolístico, nossa camisa é vermelha, em homenagem ao tiê-sangue, pássaro amazônico. Listas com as cores do arco-íris descem desde a nuca e seguem no calção até a costura na região do períneo. No meião esquerdo, cobrindo a panturrilha, uma foice. No outro, um martelo.

E o time vem, de forma igualitária, escalado com:

Adalgisa Cavalcanti, no gol;

Barão de Itararé, na lateral esquerda;

Portinari, na outra lateral esquerda (sim o time só tem lateral pela esquerda);

Marighela, capitão e quarto zagueiro;

Dyonélio Machado, fechando a dupla de zaga;

Francisco Milani, na contenção;

Graciliano Ramos, como segundo volante;

Na armação, Manoel de Barros, com a oito;

Vinícius de Moraes, meia esquerda, camisa dez;

No ataque, Jorge Amado e o garoto Niemeyer.

O sistema bancário de reservas conta com: Prestes, Vladimir Herzog, Raquel de Queiroz, Pagu e Lila Ripoll.

Técnico: João (sem medo) Saldanha.

Auxiliar técnico: Flávio Dino

Preparação Física: Manoela D’ávila.

Vai, tiê!

Ei, mãe, gentil

Ei, mãe, não sou bolsomínion

Não é justo que também queira trair meu destino

Você não fez a sua parte e votou no imundo

Que agora acha que é dono, mãe

E com seus danos quer matar você

Proteção do herege

E carguinho de mais o faz enriquecer

Ei, mãe

Já sei do Mourão

Que disse fez tudo por mito e jamais quer que eu vença

Pois somos milhões de filhos

Mas coturno não passa na quebrada

A farda tá pesada, mãe

E quem tá na rua tem que se cuidar

No início vai ser comício

Mas depois você vai se manipular

Ei, mãe, não sou bolsomínion

Não é justo que também queira trair meu destino

Você já fez a pior parte e votou no imundo

Que agora acha que é dono, mãe

E com seus danos quer matar você

Ei, mãe, não sou bolsomínion …

Fim da linha


Só quando eu já estava acomodado em meu lugar habitual, no último banco, janela do canto, bem no fundão, passando a porta de saída, que reparei no cartaz com a foto dela no painel de avisos que fica atrás do banco do motorista. Mesmo com os óculos embaçados, em função da máscara, tive certeza que era ela: a touca de lã, os olhinhos miúdos, a bolsa atravessada…

Quem pega ônibus sempre nos mesmos horários conhece o motorista, o cobrador e boa parte dos passageiros, inclusive, sabe o ponto em que sobem e o terminal onde desembarcam. O motora até espera um pouquinho no ponto, sabendo que um ou outro vai dobrar a esquina atrasado.

Ela subia uma parada depois do mercadinho, agulhas e linhas debaixo do braço, a mesma touca de lã, bolsinha atravessada, aqueles olhinhos miúdos, um casacão estufado até os joelhos. A senhorinha era conversadeira, puxava assunto com todos os passageiros, mas tinha preferencia por quem não era do horário.

Sentava-se e já ia desenrolando a prosa e o tricô. Mãos ágeis, uma fala corrida, assim, hipnótica, mansinha, monocórdica, meio trajeto e já sabia tudo sobre o interlocutor. Trocava de banco e continuava a prosa sem freio. Descia no final da linha e embarcava em outro ônibus. Figurinha carimbada no meu itinerário cotidiano.

Agora estava lá, estampada no painel de avisos. Teria desaparecido? Precisava de doação de sangue? Faleceu? Minha curiosidade, maior que o saldo do meu cartão tri, fez-me atravessar o coletivo no sentido contrário, licença, opa, desculpa aí, licencinha… No cartaz, abaixo da foto, dizia:

“CUIDADO, MELIANTE PROCURADA PELA PRÁTICA DE FURTOS DE CELULARES E CARTEIRAS. DENUNCIE”. Abaixo, o telefone da policia civil.

Não há o que não haja!

O que podemos aprender com ” A moça tecelã”?Resposta e moral da história:

A história da moça tecelã, para quem não acompanhou por aqui o texto anterior, ainda não leu o próprio conto, ou não se recorda, está no livro “Doze Reis e a Moça no Labirinto do Vento”. Na terça passada, pincei um trechinho, do mesmo livro, dos contos “A mulher ramada”; “No colo do verde vale”; e “Palavras aladas”. Confere.

Em seu tear mágico, a moça tecelã cria o mundo em sua volta, elabora com paciência, capricho e destreza todas as cores e formas que lhe cercam e nada lhe falta, de tudo, achava a moça, estava provida. Até que se sentiu só, decidiu então idealizar um companheiro, para, quem sabe, continuar a vida na trama dos filhos. Sentou-se ao tear e iniciou sua criação mais ousada.

O homem, por fora, até que foi bem produzido, espadaúdo, chapéu e bota, barba cerrada, braços fortes, voz de trovão e tudo mais, porém, ah, porém, ao descobrir a magia do tear, um gene machista e abusador, agressivo e autoritário, toma conta da sua personalidade. Exige exaustivas produções, que a mulher teça castelos e serviçais, tranca a moça na masmorra para que trabalhe sem descanso afim de enriquece-lo cada vez mais.

Acontece que as moças tecelãs estão mudando o final das suas histórias. Machos escrotos vão, aos poucos, desaparecendo do enredo. Não figuram mais como os personagens centrais no universo feminino, perderam o principado, não são mais seus donos, acabou-se o reinado. São elas agora as protagonistas, senhoras e rainhas do próprio destino.

Destecer! Foi o que fez a moça tecelã. Destramou linha por linha do marido, enquanto o mesmo dormia, livrou-se, num desenlace de linha, de tudo o que lhe oprimia, do couro das botas ao largo chapéu e não sobrou nem um fio de bigode. Assim, a moça tecelã nos ensina que a liberdade passa por não aceitarmos nada menor do que a vida que sonhamos.

Moral da história: Desfaça os nós que oprimem e seja protagonista da sua própria narrativa. Obrigado, de nada.

Resposta na próxima terça

O que podemos aprender com “A moça tecelã”, da maravilhosa Marina Colasanti?

O conto, pra quem ainda não leu, ou não se recorda, está no livro “Doze Reis e a Moça no Labirinto do Vento”, obra vigorosa, composta por treze contos de fadas onde a autora apresenta com maestria um universo mágico que, sem percebermos, interage de maneira simbólica com o nosso inconsciente. 

No livro, aprazíveis ao meu paladar destacam-se ainda os contos: 

“A mulher ramada” – [… aos poucos, em suas mãos, o arbusto foi tomando feitio, fazendo surgir dos pés plantados no gramado, das lindas pernas, depois o ventre, os seios, os gentis braços da mulher que seria sua.];

“No colo do verde vale” – [Cansado. Assim sentia-se o tempo. Muito mais que velho, muito além de antigo. Isto sou eu, pensava andando para frente, ele não conhecia outra direção.]; e, 

“Palavras aladas” – [… desta vez vai o grito por entre o estilhaçar, subindo, planando, pássaro grito que no azul se afasta, trazendo atrás de si em revoada frases, cantigas, epístolas, ditados, sonetos, epopeias, discursos e recados, e ao longe – maritacas, um bando de risadas.]

Mas esta crônica é sobre o que pode nos ensinar “A moça tecelã”. Em seu tear mágico, ela tece os dias e noites na tonalidade que melhor lhe convém. Tece a moradia e o alimento. As roupas, os móveis, tece o seu próprio mundo. Independente, plena e criativa, nada lhe faltava. Pensou tecer um companheiro, para, quem sabe, tecer o fio da vida na trama dos filhos… e foi ao tear. 

Habilidosa, escolheu as melhores linhas e fez “chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado”. Estava ali um excelente exemplar da espécie homo tricotadus. O que não sabia a moça tecelã, é que a variante herdara características genéticas do sapiens, seu parente na cadeia involutiva.

Daí que foi só descobrir o poder do tear mágico e, pronto, despertou seu macho escroto adormecido. A história então já se  conhece e se repete fora dos livros: opressão, humilhação, exigências, tudo aos seus caprichos, agressões psicológicas, cárcere privado, o roteiro, tristemente, via de regra, descamba para a agressão física e o feminicídio. A moça tecelã, sagaz, mais que Sherazade, não suportou mais nem uma noite. Mas esse texto já vai mais longo que o fio do horizonte.

Quer saber o que ela fez pra mudar o destino, descobrir o que podemos aprender e a livre adaptação de uma moral da história? Te conto na terça que vem. 

Campeonato mundial de beijo de língua


Arena lotada, torcedores inquietos e com água na boca. O planeta em todas as suas línguas ali representado. Beijoqueiros e beijoqueiras aquecem o bico, esticam, puxam e soltam os lábios, inflam as bochechas, abrem e fecham as mandíbulas em frenético alongamento.

“Halls preto, chiclete de menta e Listerineee”, anuncia o vendedor ambulante. “Pasta de dente e gengibreee, spray de eucalipto e própoliiis, bala de morango, bala de morango, bala de moranngooo”. A concorrência responde no mesmo tom.

A cerimonia de abertura, uma apresentação do modo selinho em estilo livre, antecipa as disputas. Treinadores e suas últimas instruções: “… o céu da boca, lembra de passar a pontinha da língua no céu da boca…”. “Morde, de leve, o lábio inferior, não esquece, hein, lábio inferior, de leve…”. “Cuidado com os dentes, não pode bater os dentes…”.

Alguns chupam gelo, técnica antiga. Outros ainda raspam os bigodes, ali mesmo, minutos antes. Batom mate não é permitido. Agarrar o rosto, avançar para o pescoço ou orelha é passível de punição. Abrir os olhos, desclassificação imediata.

As finíssimas peles dos lábios, suas terminações nervosas, fremem, estão à flor da pele. Uma tempestade hormonal precede a aproximação dos rostos. A dopamina aumenta a tensão arterial e acelera a pulsação, um pico de energia, os sentidos aguçados.

O corpo se prepara, aumenta sua sensibilidade. Lábios se aproximam. Hálitos emparelhados. Há troca de saliva. As línguas por fim se provam, enroscam, estalam, repousam, avivam, enrodilham e desenrolam em vórtice. Profissionais em ação.

A plateia delira. Os melhores momentos em replay no telão. Jurados e seus apontamentos. Um único pedido de VAR. Expectativa pelo resultado final.

Os melhores beijadores representarão a Terra no torneio Intergaláctico. Os favoritos, e atuais campeões, habitantes de Vênus, de língua trifurcada, com as antenas ativadas, aguardam os adversários. E prometem: “tzinxre … *ytr KOL Humans”.

O recado está dado. Beijem-se quem puder.

“Bala de morango, bala de morango, bala de moranngooo”.

O centenário de Antônio Maria

“Tenho todos os defeitos que, nos outros, detesto”.

Antônio Maria, o meu Maria, titular absoluto na seleção dos maiores cronistas brasileiros de todos os tempos, faria 100 anos agora em 17 de março.

Você sabe quem foi… Refaço a pergunta: você sabe quem é Antônio Maria?

Cronista fundamental, locutor esportivo, produtor de rádio, compositor e personagem das noites cariocas.

Amigo de Vinícius de Moraes, Rubem Braga, Ary Barroso, Paulo Mendes Campos, entre outros gênios da época. Carlos Heitor Cony dizia que se o autor fosse mandado para cobrir a posse do papa, voltaria cardeal. Já escrevi em algum lugar que trocaria, sem pestanejar, um dia do meu futuro por uma única madrugada em sua companhia, numa boemia crônica.

“O homem só tem duas missões importantes: amar e escrever à máquina. Escrever com dois dedos e amar com a vida inteira”.

Pois escreveu com dois dedos e através do grande e frágil , nas revistas O Cruzeiro e Manchete, nos jornais Última Hora, O Globo, Diário Carioca e O Jornal, seu último local de trabalho.

“Não sei o dia em que minha infância acabou. Não sei, com certeza se acabou. Porque não sei se ainda sou menino ou se sempre fui um velho”.

Cardiopata desde a infância, o Menino Grande, um de seus apelidos, dizem os faladores, morreu de amor. Talvez por Danuza Leão, roubada de e perdida novamente para, Samuel Wainer, dono da Última Hora, seu chefe na época. Fulminado por um enfarte do miocárdio na madrugada de 15 de outubro de 1964, em Copacabana, em direção ao Le Rond Point.

Retornou ao bar e às páginas, em 2014, na efeméride dos 50 anos sua morte, no livro Maria Volta ao bar, editora Buqui, pelas mãos, copos e corações de 10 cronistas, entre eles, o grosseiro rapaz que vos escreve, com organização do professor e escritor, Rubem Penz, dentro do projeto MasterClass da Oficina literária Santa Sede, Crônicas de Botequim.

“Cá estou eu a escrever tolices. Vivemos dias em que é preciso escrever tolices. Há uma dor preponderante em cada coração”.

Seu legado cobre um Brasil inteiro de empatia e sensibilidade artística. É fundamental, mais ainda nesse momento que atravessamos, o contato com boas leituras, como as crônicas, textos impregnados de cotidiano.

A canção “Manhã de Carnaval”, em parceria com Luiz Bonfá, só perde em gravações no exterior “Aquarela do Brasil” e “Garota de Ipanema”.

A obra de Antônio Maria é atemporal e serve como inspiração de leitura no
contexto atual.

“Bom dia amigos, bom dia inimigos, amai-vos e odiai-me”.

Foram publicadas até hoje umas 200 de suas crônicas, todas as coletâneas (graças) esgotadas. Calcula-se que escreveu algo em torno de três mil nos jornais e revistas do Rio entre 1948 e 15 de outubro 1964, quando faleceu, com apenas 43 anos.

Vento Vadio é o possível título de uma antologia prometida para novembro. Organizada pela editora Todavia e o escritor paulista Guilherme Tauil, autor de uma dissertação de mestrado sobre Antônio Maria, defendida na universidade de São Paulo em 2020.

“O que atrapalha minha vida foi ter visto e feito muita coisa desde pequenino”.

Maria viveu do jeito que escolheu, que nos derramou em pérolas de textos diários. E apesar disso, e por isso mesmo, quem mais o conhece, mais o ama.
Meu Maria é incontestável.

Vinicius, na ocasião da morte do amigo, em carta que recomento a leitura na integra como uma das coisas mais comoventes que já li, disse assim:

“o nosso encontro marcado deu-se numa dimensão nova, entre o mundo e a eternidade: eu aqui; você… onde, meu Maria? – onde?”

Antônio Maria é um autor gigante que merece exposição pública em todos os meios de leitura. Deixa claro na crônica – notas para um livro de memórias:

“porque ninguém sabe quando começa e de que formado é o Futuro”.

Alguns livros póstumos: Benditas sejam as moças – Editora Civilização Brasileira/2002 – organização Joaquim Ferreira dos Santos e O diário de Antônio Maria – da mesma editora – com apresentação de Joaquim Ferreira dos Santos, autor que também escreveu a biografia Um Homem chamado Maria.

*Crônica publicada na edição de abril da revista digital Paranhana Literário.

paranhanaliterario.jm2d.com.br

Coisas que eu sei que o google não sabe – II

Cofiar a barba, obtuso

Mergulhar de olhos abertos

Subverter uma ordem estúpida

Desenhar no espelho embaçado

Desistir de uma busca vã

Passar fio dental com uma só mão

Viver com com mais mês que dinheiro

Amar pelos cotovelos

Cheiro de goiaba

Conversar com os cachorros

Escrever, mal e com frequência

Fazer a barba no banho

Arrepiar ao meio das costas

Bocejar sem abrir a boca

Comer com os olhos

Velhos ditados anacrônicos

Das fotos que nao revelei

Admirar o sereno

Correr com uma criança nos ombros

Pedalar de costas

Enxertar abacateiro

Do cansaço de raciocinar

Entender o contexto

Ouvir os pardais

Meus segredos íntimos

Chorar de entortar a boca

Sonhar que se está caindo

A maravilha de ter a atenção

Pedir silêncio aos berros

Sorrir de máscara