Arrebatamento [Tiago Maria]

Revista RUBEM
20/09

RUBEM

Algemado. Apavorado. Estatelado de bruços no asfalto. Despido. Pés atados, mãos na cabeça. Um ferimento na asa esquerda. Os cabelos cacheados, loirinhos, encharcados de suor. Um pelotão isola o local e imobiliza o suspeito sob os protestos de alguns passantes: é só uma criança! Covardes, prevalecidos! Motoristas, incrédulos, diminuem a velocidade para melhor ver o ocorrido. Forma-se um pequeno congestionamento. Todos chocados com o episódio que vou descrever aqui.

São cinco militares averiguando diretamente a cena. Um deles aponta a metralhadora para a cabeça do elemento. Daqui, parece mesmo uma criança. Pelo menos tem o físico de uma criança. As mãozinhas, a bundinha exposta, as bochechas rosadas de aflição e constrangimento. Não chora. Nem tenta argumentar com o pessoal de farda. Vez que outra, olha para o céu e faz uma prece em uma língua que não é a dos homens.

Muito precavidos com seus casacões verdes até os tornozelos…

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O “coiso”, jamé!

– Eu leio textos.

– Com que frequência?

– Todo o tempo.

Textos que gritam uma determinada mensagem. Texto como um conjunto de enunciados com intenção comunicativa. Textos que podem, inclusive, não necessariamente, serem escritos. Eu leio textos em tudo que vejo. Alguns silêncios, por exemplo, carregam discursos inteiros. As roupas com que nos vestimos (a ausência delas), nossa fala, o corte do cabelo, o modelo de celular que usamos; tudo é texto. Um texto tem de estar relacionado com outros textos e adquire sentido de acordo com o contexto. Você aí, que lê este texto, você é um texto ambulante. O que você comunica, faz sentido pra você?

Eu vejo textos incoerentes nos comercias de televisão. Eu leio textos, nos diários populares, contradizendo verdades inquestionáveis com argumentos muito bem elaborados. Estão, normalmente, dispostos em uma ordem pré-estabelecida para que produzam os efeitos desejados. Textos, sempre endereçados a um público específico, conversam com os nossos textos internos e produzem sentidos através das nossas experiências, das nossas referências e de como nos relacionamos com elas.

Uma imagem vale mais do que mil clichês. Há textos por aí carregados de duplos, triplos, múltiplos sentidos. Existem textos criados só para negarem outros textos. Tem texto que escreve uma coisa e, na verdade, quer dizer outra. Textos que não dizem coisa com coisa, de propósito. Códigos em que apenas um grupo de pessoas tem acesso às chaves. Existem diversas formas, maneiras diferentes de usar, estilos específicos e grupos de enunciados mais palatáveis de acordo com o que se deseja e a quem se pretende atingir.

Um belo exemplo de texto, com toda a sua carga de sentidos, direto, preciso ao que se propõe e de fácil entendimento, é o termo que circula atualmente nas redes sociais: ele, não! Ele, quem, cara pálida? Não, o que? Este “ele” carrega o estigma da misoginia, da intolerância, da truculência, do preconceito de raça e de gênero. Este “ele”, que faz referência ao candidato presidenciável que não se diz o nome, traz consigo a imagem do “coiso”, seguido diretamente de uma negação. Ou seja, o texto quer dizer, para que todos entendam, em outras palavras: o “coiso”, para presidente, jamé!

o coiso

Crônica à luz de velas

 

caronte

 

Eu quis fazer um texto à nata da assombração, se me permitirem os desencarnados, de quem bem me recordo das noites no meu quartinho de filho único. É que os meus fantasmas só aparecem à luz de velas. Mas quanto custa uma vela? Saí desprevenido, se não aceitarem cartão, com sorte, encontro uma no buraco negro da minha terceira gaveta.

Toda chama é um pouco bailarina. Coreógrafa de luzes e vultos. Meus assombros, porém, não decoraram o compasso. Gelados, apenas contemplam a dança com um sorriso cinza. Neste pântano fértil da minha imaginação, decidi enterrá-los para sempre. No braço do sofá, o castiçal acompanha o pranto da cera que abraça o pavio. A imagem que se projeta na parede lembra uma antiga gôndola, a dança ensaiada, põe a embarcação em movimento. Agora, posso ver Caronte na popa. Fustiga a vara comprida num espelho d’água, escuro e viscoso. Move-se lentamente minha agonia. Fantasmas, estranhos aos meus, desembarcam a todo instante. Outros sobem e seguem viagem até seu inferno particular.

Não me atrevo interromper o trajeto. Também não sinto medo. Mas quero atracar de uma vez. Nem sinal de chegar o destino dos meus espectros. Nem terra nem céu à vista. Uma nevoa, que daria para cortar com faca, esconde a linha do horizonte. Sem dizer palavra, um a um, os tripulantes aproximam-se do barqueiro e desaparecem no breu. Não sem antes lhe entregarem as moedas. Minha quimera se alonga, percorre estreitos canais, desvia de pesadelos e, vez que outra, esbarra em algum tormento a deriva. O pavor, agarrado na forcola, apenas contempla a travessia.

Com uma coragem que não é minha, me aproximo do barqueiro. De costas, ele me chama pelo nome. Reconheço aquela voz, é a mesma que me roubava o sono em noites de chuva forte no meu quartinho de menino. “Moço, onde descem meus convidados?”. “Só tem um porto quem paga a viagem”. Como a morte não recebe no crédito, meus fantasmas permanecem comigo. Apago o toquinho de vela que ainda treme, despeço-me do barqueiro e pego no sono, aliviado. Trouxesse dinheiro comigo, podia não terminar este texto. Talvez tivesse aportado, junto com as almas penadas.

Enquanto Lya ao meu lado [Tiago Maria]

Revista RUBEM
06/09

RUBEM

Da vez em que estive suspenso no tempo, em uma bolha, ao lado de Lya Luft, no trânsito cactos da minha Poa.

Explico:

Foi durante a primeira Semana Acadêmica do Curso de Letras da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, a Uergs. Faço parte da comissão estudantil, dentro do Centro Acadêmico que leva o nome da escritora, o CALL – Centro Acadêmico Lya Luft. O pessoal da organização se esmerou para oferecer um motorista cuidadoso, educado e discreto; e, assim, garantir o deslocamento tranquilo da nossa patrona. Acontece que o moço não pôde vir. Eis que coube a este grosseiro rapaz aqui essa agradável, distinta e, digo da minha parte, inesquecível tarefa. Pobre Lya!

Eu já li inúmeras crônicas da Lya Luft, gosto muito. Da humanidade nos personagens, as sacadas geniais nas escolhas dos temas, o ritmo da prosa, a impessoalidade, tudo me encanta. Agora, eu jamais tinha ouvido…

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É f…

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Descaso total com a saúde. Emprego que não se conhece mais. A dor e o frio de novo na moda. É fogo!

Desvios, propinas e maracutaias. Grampos, malas e delações premiadas. Conchavos, manobras, acordos e aumentos aos homens de toga. É fogo!

A gasolina perdeu a vergonha na bomba. Buraco na pista virou piada. Limitam os gastos com a educação. Aumentam impostos. Cerceiam direitos. Querem reinventar a roda. É fogo!

Tem gente morrendo de tiro. Tem gente morrendo de medo. Tem gente querendo ir embora. Tem gente, comendo caviar, que passa na frente de gente com fome e esnoba. É fogo!

PEC do veneno. Fechamento de escolas. Idosos morrendo em filas de espera. Bandidos de terno e gravata, verbas de gabinete, pensões vitalícias, auxílios eternos. Ninguém faz nada? É fogo!

Pedem os militares. Buscam conforto em cachaça e pastores. Propõem segurança na bala. Governos. Polícias. Milícias. Igrejas. Escolas. Empresas. De costas para as minorias. Pura sabotagem com a coisa toda. É fogo!

Aquele museu fogueira, cena lamentável, reduzindo a cinzas grande parte da nossa história. Povo perdido no presente, com pouco passado e futuro incerto. Somos, hoje, mais de duzentos milhões de almas chamuscadas. Dói, mutila e incomoda. É Phoda!

Carta aberta aos futuros gestores da Uergs – Universidade Estadual do Rio Grande do Sul

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Magníficos, aqui mais um aluno desta instituição única, monumental e invisível. Eu vi o brilho nos olhos desta gente que faz da Uergs um exercício diário de cidadania. Em suas mãos, caríssimos doutores, nos quatro anos próximos, estarão muito mais que recursos humanos, patrimoniais ou financeiros. É de pessoas que é feita esta Universidade tão rica e bela em sua essência, quanto poderosa e vital em sua vocação.

Pedimos MAIS PROFESSORES, senhores futuros gestores, temos direito. Precisamos que seja autorizada a abertura de concurso público ainda nesta gestão. Estamos nestes momento sem cadastro reserva para a contratação de professores e técnicos administrativos. E isto é inadmissível. Um estado com a história que tem o Rio Grande do Sul não pode virar as costas para a educação. Que pressionem o próximo governador.

Cabe aos senhores, futuros Reitores da Uergs, mostrarem aos nossos governantes as nossas maravilhas, que são diversas, de alto nível acadêmico e sublimes ao que se propõe. Estamos entre as melhores universidades do país e pouca gente sabe onde fica a Uergs. Em Porto Alegre, por exemplo, nem nos letreiros dos ônibus estamos. E olha que, no que diz respeito a localização, estamos bem na frente a UFRGS. Temos virtudes e façanhas que podem servir de modelo.

Queremos laboratórios equipados e materiais disponíveis. Bibliotecas pungentes. Boas instalações. Internet. Acessibilidade. RU. Parcerias para casas de estudantes. Intercâmbios. Políticas de auxilio aos estudantes hipossuficientes e ingressos via SISU, vindos de outros estados. Assim como aos estudantes com algum tipo de deficiência. Estes alunos carecem de uma especial atenção e um cuidado direcionado para cada demanda específica. Mais incentivo a pesquisa e extensão, sem descuidar da graduação. Será que estamos pedindo muito? Acho que estamos é cobrando pouco.

Digníssimos, que não se apague jamais esta chama imensa de coragem pela qual foram tomados, ao ponto de lançarem-se candidatos nesta empreitada desafiadora, justa e tão necessária. Que tenham respeito e sabedoria para guiarem os futuros e as esperanças espalhadas nas regiões onde fazemos a diferença inseridos nas comunidades. Esta é a nossa força e o nosso orgulho. Nem uma unidade a menos.

Por fim, quero lembrar-lhes que tudo em nossa universidade, tudo, tudo é peleado, brigado, mesmo, com muita transpiração e muita luta. Inclusive a conquista deste processo eleitoral que ocorre agora e que muito nos orgulha. Então, prezados doutores, futuros gestores e magníficos Reitores da Uergs, estejam preparados, dispostos e com muita garra para lutar pela nossa Universidade. Eu estou. E não estou sozinho. Boa sorte!

Parto (a)normal [Tiago Maria]

Revista RUBEM
23/08

RUBEM

Quando nasce um leitor,

Todos os livros batem páginas.

Onde nasce um leitor,

A luz favorece as serifas.

Como nasce um leitor?

Enrolado no cordel angelical.

Pra que nasce um leitor?

Para questionar o próprio natal.

Ao nascer um leitor,

Morre no parto um ignorante.

Nascendo um leitor,

Renasce uma biblioteca inteirinha.

Agora escreve, escritor

Escreve que a maternidade anda cheia.

Escassos volumes, tamanha natalidade.

Escreve, escritor

Leitores já nascem famintos

vorazes por essa historinha.

 *texto premiado no Desafio Literário, concurso de escrita criativa organizado pelo Instituto Estadual do Livro (IEL) durante a 62ª Feira do Livro de Porto Alegre. Tema: nascer. Gênero: poema livre.

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E com vocês, por mais incrível que pareça, Tiago Maria, brasileiro, cansado, 37 anos, cardioinsistente. Profissão: esperança.

Idealizador da Oficina Litehilária Crônicas de Graça. Participou das antologias Santa Sede Crônicas de Botequim safra 2013, Cobras na Cabeça crônicas (ir)reverentes e Maria Volta ao…

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