A continuidade dos bares [Tiago Maria]

Revista RUBEM digital.
19/04

RUBEM

Havia interrompido a leitura dias antes. Compromissos inadiáveis. Retomou quando seguia de trem a Canoas; prendia-se vagarosamente à engenhosidade da trama, apegava-se aos personagens como aos amigos de copo e de cruz. Essa tarde, depois de algumas escritas atrasadas e reuniões com alunos, fez uma ligação para a editora e voltou à obra na intimidade daquele Sagrado ambiente. Recostado à mesa do canto, no lado das escadas, ao fundo, no mezanino, ignorou a recepção calorosa da lareira. De costas para a copa, que lhe roubaria atenção com a euforia dos garçons, sob luzes ébrias, ergueu o braço, em sinal de sede, sem afastar os olhos dos últimos capítulos. O livro, deitado à mesa, permite apoiar-se no encosto da cadeira vazia ao seu lado. Recordava sem esforço os nomes dos personagens, cenários inteiros, da fundação ao concreto, vivia o dilema da história. Conforme entornava frases, lentamente, esmaecia a visão periférica, confundem-se…

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Quando a eleição chegar

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Quem me vê sempre letrado,
Distante garante que eu não sei votar…
Tô me guardando pra quando a eleição chegar
Eu tô só vendo, sabendo,
Gravando, entendendo e não posso aguentar…
Tô me guardando pra quando a eleição chegar
Eu vejo as malas e bolsas
Da máfia que passa e não posso enjaular…
Tô me guardando pra quando a eleição chegar
Há quanto tempo desejo seu teto
Melhor do que o de marajá…
Tô me guardando pra quando a eleição chegar
E quem me ofende, humilhando, agredindo
Pensando que eu vou revidar…
Tô me guardando pra quando a eleição chegar
E quem me vê bloqueando avenida,
Duvida que eu vá prosperar…
Tô me guardando pra quando a eleição chegar
Eu vejo a barra da farda surgindo,
Pedindo pra gente lutar…
Tô me guardando pra quando a eleição chegar
Eu tenho tanta energia, riqueza,
Afanada, quem dera compartilhar…
Tô me guardando pra quando a eleição chegar

Tô me guardando pra quando a eleição chegar
Tô me guardando pra quando a eleição chegar
Tô me guardando pra quando a eleição chegar

 

Juízo

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Meu primeiro instinto, confesso, foi cerceá-la, reprimi-la, abortar. Depois, analisando melhor, o certo, mesmo, seria não tê-la. Agora que veio à luz, deixo que se crie. São essas minhas leituras a mãe de todas elas. Nascem dos livros, não tenho dúvida. Das mais iluminadas às de jerico; perdoe, jerico, a comparação. Fervilham debaixo dos caracóis que ainda resistem nos meus cabelos. Daí a relevância na tentativa de contracepção. Em evitar a interação, destruir o pensamento crítico, o acesso a cultura. Quando instigadas, as boas, as genuínas, empunham a espada do questionamento.

Chapéu, capacete, touca peruana, de natação, gorro, peruca, gumex, nada disso é capaz de contê-las em sua rebeldia. Não se interrompe o fluxo delas assim, na marra. Nem um saco plástico na cabeça pode sufocá-las. Não desligam-se cortando fios. Nunca perdem o sinal. A lobotomia é ineficaz. Impô-las viu-se inviável. A troca o que mais aproxima-se de um ponto comum. Trocar indica abrir mão de algo para receber o diferente. E, tudo que é diferente é estranho, assusta à principio, causa desconforto. Tendemos a rechaçar.

Aperto o cerco. Não as alimento nem lhes dou de beber. Calo-me, na intenção de retê-las, e quase me escapam pelos ouvidos essas mais afoitas. Desligo as luzes todas da casa. No breu, cintilam em minha órbita. Mergulho a cabeça num balde d’água e decantam, levíssimas. Algumas, carrego à cabresto. De outras, me esquivo. Têm as recorrentes e as que nunca me haviam ocorrido. Dormir, todavia, nas as encerra. Pelo contrário, toquei-as em sonhos, são belas e nítidas, firmes nos seus princípios, claras em seus discursos.

Não menosprezarmos seu poder de transformação é fundamental. Criar-se ferramentas que ampliem sua abrangência é questão de vida. Oxigená-las. Descartarmos as que já estão obsoletas. Ouvir novas. Revisitar as antigas. Acordar para realidades impossíveis. Fugirmos, incansáveis, do repetido, rejeitarmos o humilde lugar que nos foi destinado no corpo social. Pesar as que valem esforço e dedicação. Crer que ainda é possível. São tempos de resistência os que estamos (sobre)vivendo.

Pensantes, inconformados por natureza, os que as usam e abusam das suas, sem moderação. Poderosos e escassos leitores, posto que leitura é poder e o poder é para poucos. Os conscientes demais dos seus direitos políticos, aqueles com inteligência acima da mass media, esses não servem a ordem, a nova ordem mundial que se impõe. Aos que as tomam, porém, feito armas, não existem fronteiras, não há secção, tampouco prisões. O que pode ser mais subversivo que as ideias? A essas, não se consegue encarcerar.

 

Coisas que eu sei, que o google não sabe:

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Descascar bergamotas com uma só mão.
Assoviar Patience.
O regozijo de um espirro.
Agarrar-se a uma comichão aprazível.
Receita das rapadurinhas da minha avó.
Fazer o moonwalk.
Aquela noite… naquele verão…
Meu amigo secreto.
Andar descalço na brasa.
Jogar futebol na chuva.
Questionar.
Gritar músicas pela janela do carro.
Dançar com minha senhoura.
Rir de doer as têmporas.
Ouvir meus botões.
Beijar de língua.
Vestir-se com elegância.
Chorar de felicidade.
A carga de uma amargura.
Dos filhos & seu universo.
Pensar que Deus existe.
Suspirar, imensa e apaixonadamente.
Ver com os próprios olhos.
Abraçar a madrugada vil.
Gosto de ambrosia.
Cansaço de arder os ossos.
Aquilo que eu não perguntei.
O erotismo da intimidade.
Nosso pacto.

 

Apito de afiador de facas

(des)encontro histórico

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Sabe seu Erico, no sábado passado, visitei a casa onde o senhor nasceu na cidade de Cruz Alta. Visitamos, é verdade, meus colegas e eu, em um seminário de educação, licenciaturas pra ser mais exato. Olho-me agora no espelho dos meus quase quarenta anos e peço a mim mesmo, como reverência, um belíssimo texto, “feito um concerto de jazz ou uma grande peça sinfônica”. Percebo que meus cabelos começam a seguir o mesmo destino dos seus. Daria um dia do meu futuro pela chance de uma conversa com o senhor. Quis o destino, esse cavalo aloprado, que não nos encontrássemos fisicamente nessa carreira. Mas como falaram comigo, diretamente comigo, aquelas palavras, tão precisas e honestas, tão exatas, que escreveu, bem sei, não pensando em mim, sinto-me à vontade nesses garranchos em lhe chamar de seu Erico. Tenho-lhe uma afeição genuína, lembranças do meu avô, seu Leonel, contador de histórias pra neto dormir. Seus Solos de Clarineta me chegaram pelas mãos de um tio muito especial, pessoa que fez toda a diferença nessa minha teimosia de viver da palavra escrita. Meu tio, Régis Waldemar de Lima Hasperoy Sobrinho – nome de biblioteca -, lia tudo que lhe caísse nas mãos; o que mais o desconsertasse, escorregava às minhas. Reparo agora que a nenhum dos três posso abraçar em agradecimento, carinho, despedida. Deixo aqui meu coração suspenso, feito o adeus do seu Sebastião ao menino Erico, na estação ferroviária, em ocasião de sua última partida. Devo muito, mas muito, muito, mesmo, aos senhores.
As fotos na sua casa, os objetos de trabalho, livros, pares de óculos antigos, a velha máquina de costura em que Dona Bega debruçava seus dias e noites. A farmácia, onde hoje funciona, veja só, uma farmácia. As praças, separadas quatro quadras uma da outra, a igreja, Terras e Cambarás, tudo respira Santa Fé. O sobrado do seu avô, seu Franklin, no entanto, sucumbiu à ganância. A mesma que pretende implodir também nossa educação. Humanista que era, vivendo esparsos intervalos democráticos, se fosse ao seminário conosco, ouvindo nossas realidades, pior, entendendo as realidades que se anunciam aposto que sentiria como um soco na boca do estômago. Foi o que sentimos. Para absorver o golpe, é preciso que se compreenda o golpe. De onde veio. Sua função e reais intenções. São imprescindíveis doses diárias de Paulo Freire e Darcy Ribeiro. Uma imersão em Anysio Teixeira e Florestan Fernandes para entender que o contrário do ódio é educação. Nas palavras da incansável professora Jaqueline Noll, urge mudarmos completamente nossas escolas, cheias de formalismos e farsa, onde ingressam mil e saem trinta. Tardias, excludentes, discriminadoras, verticais e silenciadoras. Escola calada, País mudo.
É neste cenário, seu Erico, que me atrevo a fazer literatura, ou sei lá o que seja isto que faço, tentando imitá-los, ao senhor e ao seu filho, aquele “bicho de concha”. O que me sobra em cara de pau é o que careço em estilo. Assim mesmo, em nada intimidam as agruras que me espreitam, famintas. Sei dos perigos. Conheço o destino dos jovens escritores periféricos provincianos. Faço essas escolhas de queixo erguido, pisando firme, sapato sem sola e bolso furado. Nosso desencontro histórico, acredito, evitou meu constrangimento em pedir-lhe conselhos. Só isso me ampara sua nunca presença. Acertamos as contas, ao menos da minha parte, no diálogo entre Floriano e Rodrigo Cambará, em O Arquipélago. Melhor assim, que somente eu o ouça e que nunca me tenha lido. Preservo o que ainda me resta de dignidade. Ai, que não se pode mais confiar em espelhos. Pedi um texto belíssimo, um concerto de jazz, uma peça sinfônica, eis que me sai esta crônica tosca, um apito de afiador de facas. Perdoe, seu Erico, ele não sabe o que escreve.

O colírio do ciclope

Primeiramente, foras temers a parte, antes de mais nada, quero aqui deixar bem claro que ninguém me contou essa história. Não li nos livros ou assisti no cinema. Tampouco veio-me em sonhos. Acontece que, se alguém tivesse me contado, eu também, provavelmente, duvidaria. O cara tinha uns três metros. Um monóculo esquisitíssimo. Era mais feio que bater na própria mãe. Orelhas de duende. Cacos de dentes uns sobre os outros. Mas, aquele olho… aquele olho arregalado parecia um ovo frito bem no meio da testa. Agora, uma justiça eu me obrigo a fazer. Gente fina que não vi igual. Abordei-o, assim, sem muito gregrê:
– Cara, tu não és um daqueles, Centauro?
– Ciclope.
– Isso, ciclope. É que eu trabalho pra revista Visão, tu poderias me conceder uma entrevista?
– Deixa eu ver… é, tá bom, se for bem rápido.
– Vai ser tipo pinga fogo, que te parece?
– Olha, por mim, não vejo problemas.
Pousou o óculo sobre a mesa sem pestanejar.
– Então, vamos lá: seu nome, por favor?
– Olhãoderson Silva
– Profissão?
– Olheiro de futebol.
– Uma comida?
– Cenoura.
– Uma música?
– Pela luz dos olhos teus, Tom Jobim.
– Um livro?
– Olhai os lírios do campo, do Érico Veríssimo.
– Uma série?
– Blindspot, Martim Gero.
– Um poeta?
– Glauco Mattoso.
– Um sonho?
– Morar em terra de cegos.
– Um tipo de…
Foi quando adentrou uma jovem estrábica, aos prantos, desconsolada, vesga que chorava com um olho e as lágrimas escorriam pelo outro. Seu Olhãoderson nem piscava. Aquele olhão arregalado, a boca empilhada de dentes, aberta, semibanando. Limpou o óculo, parecia incrédulo. Levantou-se eufórico:
– Desculpe, não posso continuar. Aquilo é um colírio para o meu olho.
Não consegui uma foto pra não passar por mentiroso. Na pressa, deixou o óculo. Se o virem por aí, digam que está comigo.

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Adote um bixo

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Perguntaram essa semana a respeito da minha primeira impressão sobre a universidade onde estou cursando letras. Confesso: faltei com a verdade. Não tive coragem de responder aos professores o que realmente sentia. Aqui, pra vocês, assim, entre nós, fico mais à vontade. Mas não vão espalhar na rede, tá? Sabe, tenho a impressão de estarem todos a me enganar. Encenando. Não pode ser verdade. Eu sonhava com um cantinho pra estudar português, uma carteira discreta, pertinho da janela, onde soprasse uma brisa amiga que abrandasse meus calorões, um ventiladorzinho de teto, quem sabe. Um, ao menos um, professor motivado, colegas agradáveis, essas coisas. Sei da realidade nas universidades públicas no meu Brasilsilsil. Preparei-me pra encontrar aquela velha sabotagem que bem conhecemos. Poucos recursos, estruturas acanhadas, docentes aos farrapos.

Saltei de paraquedas nessa oportunidade. Desconfio que meu paraquedas não abriu e bati com a cabeça. Só posso estar variando, como diz minha vovozinha. Não é possível, gente. Pra começar, minha unidade fica a quinze minutos de casa. O Campus tem doze hectares, eu disse hectares (quanto é um hectare, mesmo?), e faz parte de uma estrutura com vinte e três unidades espraiadas pelo estado. Fomos recepcionados pelo Irineu, o cão comunitário que eu ouvi dizer estar no segundo pós. O curso, que é focado na formação de professores, tem uma atenção carinhosa com a parte pedagógica, traz no currículo inclusive alfabetização. Os professores, com os quais tive contato até agora, são as pessoas que eu quero ser quando crescer (será que eu ainda cresço?). As salas têm ar condicionado modo Frozen. Meus colegas, parece que fizemos juntos todo o ensino médio. E todos eles, colegas e professores, só falam de assuntos que me fervilham as ideias. Li a respeito de bolsas que a universidade dispõe, com auxílio financeiro aos estudantes. Gente, querem pagar para que eu estude. Me belisca. Sabe sensação de pertencimento?

O funcionário que nos ajuda com as demandas práticas no dia a dia, muito discreto e prestativo, tem nome de escritor filósofo iluminista francês. Seu Voltaire reparou meu estado de abobalhamento: “É, Maria, no início, tudo muito legal, mas a convivência diária não é mole, até a meia fura no dedo maior”. Gênio! Claro que eu sei dessa empolgação inicial. Por isso mesmo controlei-me e não saí beijando todo o mundo no campus. Quando perguntaram o que eu estava achando, disse: “é, bacana”. Mas estava mentindo. Não achei bacana. Acho, de verdade, que essa é a melhor coisa que poderia ter acontecido nessa minha tão miserável vidinha. Mas não digam que eu falei isso. Claro que eu sei do trapo que anda nossa educação. Da desvalorização. Que o CPERS fez cem dias de greve recentemente. Sei da resistência histórica da classe. Não vejo, porém, momento melhor e motivos mais nobres para me alistar nessa luta. Deixem-me sonhar. Antes que eu precise trocar meus sonhos por uma metralhadora.

Dirão: tadinho, deslumbrado; pobre calouro; no início é assim; quero ver aguentar a sala de aula; lá pelo quarto semestre a gente conversa; deixa passar a primeira semana de prova; ainda não teve aula de …

Tenho certeza que, em alguns momentos, já no final do curso, vou entrar no campus com vontade de chutar o Irineu. Vou reclamar dos mil seiscentos e quarenta degraus. Do café. Certo que ainda vou acusar de perseguição aquele professor abençoado que me deu nota baixa naquela prova que eu não estudei. Estou ciente de tudo isso. Uma condição de fogo foi posta pela universidade e talvez poucos tenham percebido. Foi essa chama que nos reuniu, nesse quase improvável espaço, ao mesmo tempo, buscando os mesmos caminhos. Vi essas fogueirinhas nos olhos dos meus colegas e nos olhos dos professores, umas em brasa, outras, labaredas. No edital, a primeira coisa, primeirinha, dizia assim: Com vocação.

Era só isso, gente, precisava desabafar. Oh, lá vem meu ônibus!