quando penso a morte

penso na dor dos que não morreram

 

quando penso a morte

penso no silêncio das pedras.

 

quando penso a morte

penso nas pessoas que vivem a pensar na morte

 

quando penso a morte

penso numa velha sem dentes de longa trança grisalha

 

quando penso a morte

nunca mais o sol no rosto

 

quando penso a morte

penso em meus mortos queridos que nunca param de morrer

 

quando penso a morte

penso nos vivos a refutar os pequenos prazeres

 

quando penso a morte

penso no breve que é o seu oposto, no quão fugaz seu deleite

 

um coro de passarinhos na minha cozinha

gorjeiam

 

e há sempre alguém que dirá:

amanhã faz um dia.

 

ursinho

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Minha lista do Met Frix [Tiago Maria]

Revista RUBEM
07/02

RUBEM

Game of Tontos

Em uma terra habitada por criaturas incríveis, uma família luta para agarrar-se ao trono a qualquer preço, desde que aceitem depósitos de dois em dois mil. Fantasia. Intrigas. Ação, ou melhor, ações, muitas, preferenciais. Cenários de privatizar. E um elenco escolhido especialmente para você não tirar os olhos da tela, incrédulo.

Rombo 3

Um ex-combatente militar assume a missão mais nooossaa, que issooo, da sua vida. Treinado para o manuseio de diversos tipos de armamentos de destruição das massas, como: canetas esferográficas, carimbos, papel timbrado, cofres de grande calibre, fundos falsos, pautas bomba, contas fantasmas e documentos ultrassecretos que vão causar um rombo no tesouro.

Corra que a milícia vem aí

Os integrantes  da academia mais louca que você já viu estão de volta. Agora, as trapalhadas da milícia carioca podem ser vistas em uma comunidade carente próxima de você. Os premiados milicianos farão uma tournée pelo…

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Inescrevível

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Eu ia escrever sobre o massacre de Brumadinho.
Ia escrever sobre o ministro da deseducação.
Escrever sobre os documentos ultrassecretos.

Eu ai escrever sobre o Flávio e o Queiroz.
Ia escrever sobre a Sabrina Bittencourt.
Escrever sobre a Marielle.

Eu ai escrever sobre a desforma da previdência.
Ia escrever sobre a morte da justiça do trabalho.
Escrever sobre mestrados bíblicos.

Eu ia escrever sobre a ARENA. (e os militares)
Ia escrever sobre antigo PFL. (e os militares)
Escrever sobre o DEM. (e os militares)

Eu ia escrever sobre o pacote anticrime que permite a execução sumária.
Ia escrever sobre o Maia.
Escrever sobre o Alcolumbre.

Eu ia escrever sobre a bancada da Lama.
Ia escrever sobre mapas ambientais adulterados.
Escrever sobre os 82 votos dos 81 senadores.

Eu ia escrever sobre o Lactíssimo Privatizador do Estado.
Ia escrever sobre os servidores pedindo emprestado o próprio salário.
Escrever, só, mas é inescrevível.

Resposta a um amigo traído [Tiago Maria]

Revista RUBEM.
24/01

RUBEM

Olha, amigo, se te conforta, assumo aqui, também já levei um belo par, se não mais, de decepções. Aprendi, quando os engraçadinhos abordam o assunto, a usar o meu: absolutamente! Que serve para qualquer pergunta e não diz, absolutamente, nada. Decepcionar-se é bem comum, acontece muito no meio familiar. E quando envolve mulher e filhos, patrimônio, motorista, policia, aí sim, normalmente, termina em litígio.

Somos traídos apenas por pessoas nas quais confiamos muito. Havendo um risquinho de suspeita, uma cisma, receio, meio pé atrás, aquele pressentimento ruim, uma atitude duvidosa e o sujeito já perde o crédito. Só nos traem aqueles em quem depositamos nossas esperanças e certezas cegas. Por isso, te garanto, amigo, sei o que estás passando. Eu já tive certezas e confianças que cuspiram na minha cara na primeira gripe.

É, mesmo, muito constrangedor ser o último a dar-se conta. É igual sair perguntando pelos óculos que…

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Lactíssimo Governador

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O certo, mesmo, é que temos todos um pouco o quê reclamar sobre o desfecho deste último pleito eleitoral. Cada estado federado elegeu um governante para chamar de seu. Agora, vejam a situação em que nos encontramos, nós gaúchos. Tomou posse por esses dias o Lactíssimo Governador do Estado do Rio Grande do Sul e do Ar do Leite. Absurdo! Pergunto a vocês: conseguirá tomar conta do estado e do ar do leite?

Vamos às evidências:

O ar do leite, se ficar muito exposto, azeda. Se muito pressionado, vira nata. Muito agitado, é batida. E se começarem a bater, de verdade, transmuta-se em queijo. Leite, quando começa a se envolver com a indústria, acaba iogurte de morango. Leite fresco até vai, mas assim, dormido, compensado, a base de soro, não tem como engolir.

E o pessoal com intolerância, como é que fica, Lactíssimo? Há também os que não podem nem sentir o cheiro dos seus derivados. O leite, esse que conhecemos bem, sabemos, é oriundo das enormes tetas de uma vaca que nunca termina de ser ordenhada. Não seca jamais essa teta mãe gentil..

Cuidar das economias, da infraestrutura, do funcionalismo, não descuidar da educação, melhorar investimentos em saúde e segurança, será possível não tirar os olhos do estado e do ar do leite? Não quero atiçar o braseiro, mas, o leite é assim, tu estás ali, não tira o olho dele e nada acontece, de repente, uma piscadela, um segundo de distração e pronto, ferve e lambuza tudo.

O problema é ficarmos quatro anos sem tirar os olhos do leite. Uma hora a gente cochila, tem que ir ao banheiro, deixa alguém cuidando bem rapidinho, pede pra avisarem quando começar a cheirar leite queimado. Só que daí, normalmente, a vaca já foi pro brejo. Não adiante chorar sobre o leite mais votado.

A salvação é conseguirmos misturar os ingredientes certos, nas quantidades exatas, expostos as temperaturas específicas, durante o tempo adequado, em ambientes propícios, sob pressão constante. Aí, sim, talvez, este governo nos brinde com algo que lembre o gosto de uma ambrosia de forno, ou, quiçá, de um pudim de leite.

NOTÍCIA BOMBA!

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Tá, bomba, não, estalinho…

Não é que seja de um todo boa, não é isso, mas tem seu lado aprazível se vista de algum ângulo que, agora, de bate pronto, assim, no momento, não consigo vislumbrar. Não que mereça destaque ou qualquer coisa de preocupação, nada disso. Na verdade, nem sei se é mesmo notícia que se apresente, se é digna de nota, por isso, largo assim, na surdina, e saio de fininho antes que notem ser só eu mesmo, outra vez, falando de mim.

Acontece que depois do nosso pleito dezoitão, e a enxurrada de manchetes sobre mitos e seus laranjais, divindades em goiabeiras, diz que me disse, disse que disse, não disse e disse pra que não diga mais nada, as notícias acabam atropelando-se. Penso, como você não percebeu nada, que não teria importância nenhuma o que eu vou dizer. Mesmo assim, preciso dizer, um pouco avexado, é verdade, sonhava trazer-lhes sublimes novidades, não este arremedo de fofoca chinfrim.

Vão legalizar outra vez a caça às baleias. As abelhas estão desaparecendo. Geleiras derretem. Vulcões despertam. Tsunamis. Massacres aos indígenas. Não se sabe até hoje quem matou Marielle. O ministro da educação colombiano. O amigo do presidente na Petrobrás, o filho do vice no bb, o mesadista, digo, motorista da primeira dama no MP, opa, quer dizer, no hospital, o ministro nota fria com nome de marca de chuveiro, tudo isso é mais urgente, surreal e importante do que o que eu vou anunciar. Porém, o faço pois só consigo viver desse jeito, como sentenciou o velho Braga, em voz alta.

É verão. O ritmo sertanejo universitário ainda não se formou neste semestre e segue sua repetência nas rádios, nos automóveis, elevadores, parques de diversões, agências do correio, no carrinho de picolé e nas farmácias nossas de cada esquina. Meninos usam, fio dental, azul e meninas usam, os pelos das axilas, rosa. Quase a segunda década do século vinte e um e animais ainda são abandonados nesses períodos de férias. Pessoas matam-se umas às outras nas estradas. Mas também não são essas idiossincrasias que eu quero contar.

Tá, vou falar, não que alguém tivesse me perguntado, longe disso, de fato, pouquíssimos perceberam, eu é que tenho essa mania de explicar o que ninguém quer saber, exatamente como estou fazendo agora, enquanto ganho tempo e tomo uns goles de vergonha na cara. É que eu volto a escrever nas terças, pronto, falei. Achei justo, meus amigos, que soubessem. Agora podem organizar suas agendas e desviarem das minhas redes sociais nesses dias, ou, aos que preferirem, que continuem a ler as bobagens desse pobre moço. Bom, é isso, eu avisei. Obrigado, de nada.

Desacreditado [Tiago Maria]

Revista RUBEM
10/01

RUBEM

“Diz a ela que me viu chorar, você pode usar o argumento que quiser”.

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– Não, não é isso, não é bem isso, sabe, tem que ser mais direto, entende, mais direto.

– Sim, sim, entendi, mas então por que não vai lá e explica tudo de uma vez?

– É que não é fácil, né? Não é fácil dizer tudo, assim, na lata.

– Entendo.

– E um e-mail, que tal?

– Muito formal.

– E se eu mandasse uma mensagem pelo whatss?

– Muito frio.

– Acho que vou ligar, mesmo…

– Por telefone é mais fácil ela dizer não.

– É verdade.

– Vai lá, diz que precisa falar com ela pessoalmente e pronto.

– E a coragem?

– Então marca um almoço, aproveita a hora da sobremesa e fala.

– Ela não come doce.

– Então, sei lá, tenta no intervalo, um cafezinho, uma conversa…

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