Folia diária

É madrugada ainda enquanto a bicha do 520 serpenteia entre os vãos do terminal Triângulo. Tivesse um guizo na cauda e faria, ao fundo, uma bela paisagem sonora. Passos curtinhos, apertados, marcam a cadência até o embarque definitivo da comissão de frente na “minhoca de metal que corta as ruas”. A catraca faz às vezes da caixeta: tec-terec-terectec-terec-terectec, acompanhada pelo tilintar do vil metal na gaveta do já quase extinto cobrador. “Mais um passinho, por gentileza!”. O baile é de máscaras, uso obrigatório. Até minha estação primeira, janelas semicerradas. Direto da velha guarda, mestre-sala e porta-bandeira tem assento preferencial. A cada paradinha da bateria, o coração desfalece, vai chegar… tem que chegar… olha o tempo… tem carro estragado ali na frente, “vai descer na próxima aí, por, favor”, “oh abre alas que eu quero passar”. Tamborila uma goteira no assoalho. O freio a ar faz a cuíca. Braço pra fora, alguém marca o compasso no bumbo da lataria. O mestre motora buzina contrariado. O puxador agarra a cordinha da campainha sem dó, atravessando o enredo. O Sol já aparece na evolução, bordando lantejoulas douradas com a linha do horizonte. No retrovisor, cada bloco exibe seu luxo e originalidade. Fiscais anotam os (es)quisitos de acordo com a sua categoria. É terça-feira de cinzas. Final da linha. Todos na busca de seus respectivos barracões. Vai começar a folia de verdade. Enfim, apoteose e dispersão.

Última mente

Bom, primeiramente, perdoe esta aparência de quem caiu de um caminhão de mudanças. Mas é que eu caí, mesmo, de um caminhão de mudanças, e não consegui ainda me situar muito bem. Por isso, pergunto: o mbl é um movimento de extrema direita, estranha indireta ou extraterrestre?

Segundamente, os autores, José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta, alegam “ironia” e “falta de fontes históricas” ao retratarem no livro “Abecê da Liberdade”, crianças negras brincando de escravos de Jó em navios negreiros, pulando corda com correntes, dançando para serem vendidas. Isso é: escárnio nacional, estratégia comercial ou apenas o nosso racismo institucional impresso?  

Terceiramente, o vampiro das trevas, com supremo com tudo, Fora Temer, além de coaching presidencial e copywriter do capetão, terá feitiçaria sobrenatural suficiente para esconder as rachadinas da familícia com suas vergonhas todas escancaradas?

Quartamente, segundo o advogado do compositor Toninho Gerais, a música ‘Million years ago”, da cantora Adele, teria plagiado a melodia de “Mulheres”, composição que ficou famosa na voz do Martinho da Vila. Contam os faladores que o processo corre de vagar, é de vagar, é de vagar, é de vagar, de vagarinho…

Ultimamente, e sempre menos importante, discute-se a “positividade tóxica”. De fato, o que a gente não mostra nos stories não deixa de existir, continua afetando a nossa vida. Represar sentimentos e escondê-los, inclusive de nós mesmos, para que não apareçam na “publi”, é inútil, infantil e prejudicial à saúde. Do Nietzsche: “Também vós, para quem a vida é furioso trabalho e desassossego: não estais muito cansados da vida?”. Ultimamente eu ando um pouco, sabe…

O falo e a falácia

Fossem os homens a sangrar pela uretra uma vez por mês e já teriam instituído o absorvente íntimo como item essencial lá nos primeiros séculos.  

Déssemos à luz e parto só se realizaria com anestesia geral. Seria estipulado um período de oitentena, com repouso absoluto e tutela materna integral.

Tivesse a natureza nos presenteado com a dádiva da amamentação e um par de seios, veríamos instalado hoje o peitocentrismo. Ostentar mamas enormes então passaria a símbolo de poder e virilidade.  

Carecemos, mesmo, de ciclos, como a Lua e as mulheres, para nos renovarmos constantemente. Assim, quem sabe, extinguir de vez o macho agressivo, ambicioso, predador e insensível que ainda habita em nós.  

Não há nada na ciência que justifique uma suposta primazia dos homens sobre as mulheres. Não existem evidências na biologia, sequer na antropologia, tampouco, e ainda menos, na psicologia.

Falta é deixarmos de exaltar apenas as ditas “características” masculinas e romantizarmos as femininas, para construirmos uma nova consciência sobre o feminino e incentivar homens e mulheres a acessá-la.

O falo, como signo do poder e arquétipo da fecundidade, broxou. A nova realidade bem que podia ser macia, prazerosa, quentinha e aconchegante feito uma vagina. É pedir muito?

Classe Cordial

“… é por isso que eu preciso que vocês se levantem que abram os olhos e façam alguma coisa!”.

Espetáculo sublime, profundo e sensível!

O vídeoteatro, protagonizado pela inquieta Deborah Finocchiaro, dirigido por Jardel Rocha e com dramaturgia de Thiago Silva, fez sua estreia ontem e fica disponível (https://youtu.be/NTg1vdG8r1A ) em temporada que segue até o dia 14 de setembro.

O projeto, que foi viabilizado pela Lei Aldir Blanc, é uma parceria da Coletivo Nômade de Teatro e Pesquisa Cênica com a Companhia de Solos & Bem Acompanhados.

Embora o ponto de partida sejam pesquisas sobre a exclusão de pessoas em instituições manicomiais, a obra acaba por abordar, de modo mais abrangente, outras violências estruturantes da nossa sociedade.

“Estrutura social irregular e autoritária que se esconde sob a face altiva e benevolente”.

Edição, sonoplastia, texto, trilha, iluminação, tradução em libras e uma atuação irreparável dão conta de narrar às histórias de pessoas que escapavam de certos padrões sociais, sendo vítimas de negligências e maus tratos. “Mães solteiras, jovens adolescentes que transavam antes do casamento, prostitutas e toda a sorte de pessoas que não se enquadravam no ‘normal’”, explica o dramaturgo Thiago Silva.

“Se vocês ainda não sabem, eu tô avisando, eu não sou boazinha, eu não sou queridinha, eu não sou mulherzinha, não sou mãezinha, eu não sou nenhum diminutivozinho dessa gramática de horror, essa gramática podre de desrespeito, desumana, desumana, tão desumana…”.

Para a edição do Matinal Jornalismo, Deborah conta que sua interpretação tem mais a ver com incorporar vozes: “É mais um arquétipo ou representação das figuras que vivem esse drama, que têm suas vidas ceifadas por não estarem dentro de um padrão. Qualquer um de nós, dependendo do contexto em que estivesse inserido, poderia ser considerado louco e ser eliminado”.

O nome do espetáculo nos remete ao livro “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, nele o autor traz a ideia de que o povo brasileiro é cordial, amigável, festivo, hospitaleiro e que lida muito bem com as diferenças. A história do nosso país, porém, mostra que, muitas vezes, o lugar do diferente é o distante, o recluso e, de preferência, mudo.

“São as mesmas grades, as mesmas janelas da casa grande… pensam que sabem tudo, que acumularam as melhores qualidades dos seus antepassados, mas não se dão conta de que podem ter acumulado os piores defeitos… Grades são sempre grades, mas uma porta pode ser muita coisa. Muito tempo diante de uma porta fechada e já não sabemos mais a diferença entre uma porta e uma grade”.

Obra pujante, de uma sinceridade que nos acerta feito um tapa na cara da hipocresia. Deborah em sua melhor forma, transborda sua paixão e empresta o seu talento para dar voz aos silenciados pela história.

Sublime! Sublime! Assiste lá e me conta.  

PS: usando fones de ouvido a experiência é mais intensa.

FICHA TÉCNICA

Ideia Original e Dramaturgia: Thiago Silva

Concepção de Encenação e Direção: Jardel Rocha

Atuação: Deborah Finocchiaro

Trilha Sonora Original: Angelo Primon

Iluminação: Everton Wilbert Vieira

Figurinos: Deborah Finocchiaro e Jardel Rocha

Chapéu : Rosina Duarte

Assessoria de pesquisa: Gabriela Touguinha

Tradução para libras: Celina Nair Xavier Neta

Edição e finalização: Jardel Rocha

Produção do projeto: Jardel Rocha

Assessoria de imprensa: Bebê Baumgarten

Parceria cultural: Nômade: Teatro e Pesquisa Cênica e Companhia de Solos & Bem Acompanhados

Apoio: Fundação Ecarta, FM Cultura – 107.7 e Rádio Univates FM 95.1

Quem conta?

Foram os últimos a escrever mil novecentos… nos cadernos de aula. Sabem o que é um bodoque. Conheceram televisão com tubo de imagem. Usaram ficha telefônica em orelhão e ouviram disco de vinil. Tomaram Biotônico para abrir o apetite e óleo de rícino pra curar de prisão de ventre a caspa. Envenenaram mosquitos com a bomba de Flit.

Acham que o homem é o provedor da casa, que a mulher deve se dedicadar aos afazeres domésticos e estar sempre pronta para servi-lo. O prato à mesa, a toalha estendida pro banho a roupa limpa e passada. Estão convictos de que: orientação sexual é frescura; política de cotas é mimimi e sustentabilidade é coisa de bicho grilo desocupado. Querem a volta do Repórter Esso e da Glória Maria. Pensam que os militares estão prestes a salvar o país de uma terrível ameaça comunista.

Eu conto ou vocês contam?

Foram os primeiros a escrever dois mil… nos cadernos, hoje, tablets e celulares. Sabem o que é e para que serve uma scrunchie. Só conhecem telefones sem fio. Usam wifi pra baixar app de música, que escutam em fones via Bluetooth. Tomam Yakult pra reestabelecer a flora intestinal e vacinas preventivas.       

Acham que “baixar a bola” é um aplicativo. Que o mundo se imprimiu da internet. Estão convictos de que os pais não fizeram a última atualização de software. Dispensam os almoços em família, fogem de praças e parques ensolarados, onde tem muita gente de verdade. Precisam de mais seguidores, muitos crushs e amigues virtuais. Querem os games como esporte olímpico. Pensam que o mundo, assim com está, pode ser salvo nas nuvens e reiniciado com upgrade.

Vocês contam ou conto eu?

Estranhos íntimos

Não posso negar que temos uma relação antiga e respeitosa, de carinho até. Hoje, porém, profissional acima de tudo. Algumas rusgas, evidente, quem não as têm, quando o convívio é diário. Só a intimidade é capaz de revelar os nossos verdadeiros sujeitos, nossas melhores e piores edições.

Agarro-as pelas perninhas. Peso. Meço. Sinto o cheiro. Confiro a raiz e a cor. Corto. Aglutino. Provo o gosto que têm. Mas, confesso que não as domino. Não com a graça que gostaria. Longe disso. Na verdade, na verdade, sou delas um dependente cínico. Sem elas, um apedeuta, néscio, grosseiro e insensato.

É fato que tenho me dedicado a tentar entendê-las melhor, estudado suas variações. Sobre a maneira como se relacionam e as diferentes formas e nuances que arranjam. Suas origens. Conheço-lhes as intenções e o alcance. A força das suas misérias e o poder das suas maravilhas.

As palavras e eu, sempre soubemos, somos estranhos íntimos.

Estômago

Tudo me afeta primeiro na boca do estômago. Recordo um “upper” dois dedos abaixo do esterno, recebido de surpresa, durante um dos dolorosos recreios da minha infância no Polivante. Depois, lembro que me sobrou um canhotáço na altura do umbigo, em uma confusão generalizada, num campeonato de futebol de várzea em Cachoeirinha. Outra vez, uma bolada à queima roupa que quase atravessou e saiu pelas minhas costas, nessa ocasião, fiquei babando sem ar mais de um minuto e troquei umas três vezes de tons de roxo.

Tudo me afeta primeiro na boca do estômago. Agora mesmo, enquanto escrevo, minha gastrite de estimação reclama seu Omeprazol diário, só por hoje. Ficar angustiado é um nó cego nas tripas. Quando é ansiedade, uma trouxa de pano embrulha no fundo. Tendo fome, queima igual gelo. Com medo, vira um panapaná. Por sorte aprendi com meu amigo, o poeta Léo Cruz, que “as minhocas da cabeça, espantam as borboletas do estômago”.

Tudo me afeta primeiro na boca do estômago. Uma criança vendendo pano de prato me arde o diafragma. Sinto feito uma adaga no bucho uma senhora dormindo ao relento, na estação da indiferença térmica. Dói nas vísceras saber que ainda tem gente com fome. Então eu inspiro profundo, fecho os olhos e solto o ar pela boca bem de vagar. Mas só o que passa é esse meu desconforto na boca do estômago. E o resto? 

Listas …

Para os adoradores de listas, listei mais uma.

8 dúvidas para chamar de nossas:

1 – O que será do amante à moda antiga, aquele que ainda manda sms?

2 – Por onde anda o Lobão?

3- Quem cai primeiro, os meus cabelos todos ou o estigma de skatista vagabundo maconheiro?

4- Quais as diferenças e semelhanças entre o casamento e um regime de exceção? 

5 – O paraíso é pet friendly? Lá tem pão de casa?

6 – Refrigerante com rótulo que alerta sobre o perigo do consumo, quando? 

7 – No foguete do Bezos aceita TRI escolar?

8 – O Bozo a cair:  a) é falta  b) é farsa  c) é festa 

 Queremos saber…

EX

QUANDO ele VIRAR EX,
a Ema a gemer de gozo, desencava o pescoço pra rir do bozo.
E vai ter festa de índio, de negro, de gay e da sensatez.
QUANDO ele VIRAR EX.

QUANDO ele VIRAR EX,
o imediato alívio do Planeta.
Vai chover água benta pra nos lavar do capeta.
Será um banho de glória.
A esperança é a bola da vez. QUANDO ele VIRAR EX.

QUANDO ele VIRAR EX,
a selva a salvo, a mata e o bicho.
Vai reflorescer todo o verde sobre o legado do lixo.
Vai ser o martírio do falso burguês.
QUANDO ele VIRAR EX.

QUANDO ele VIRAR EX,
a economia aquecida.
Saúde, educação e comida,
quando cair o genocida.
Vitória da humanidade através da ciência,
vai vazar da presidência e dormir lá no xadrez. QUANDO ele VIRAR EX.