Última mente

Bom, primeiramente, perdoe esta aparência de quem caiu de um caminhão de mudanças. Mas é que eu caí, mesmo, de um caminhão de mudanças, e não consegui ainda me situar muito bem. Por isso, pergunto: o mbl é um movimento de extrema direita, estranha indireta ou extraterrestre?

Segundamente, os autores, José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta, alegam “ironia” e “falta de fontes históricas” ao retratarem no livro “Abecê da Liberdade”, crianças negras brincando de escravos de Jó em navios negreiros, pulando corda com correntes, dançando para serem vendidas. Isso é: escárnio nacional, estratégia comercial ou apenas o nosso racismo institucional impresso?  

Terceiramente, o vampiro das trevas, com supremo com tudo, Fora Temer, além de coaching presidencial e copywriter do capetão, terá feitiçaria sobrenatural suficiente para esconder as rachadinas da familícia com suas vergonhas todas escancaradas?

Quartamente, segundo o advogado do compositor Toninho Gerais, a música ‘Million years ago”, da cantora Adele, teria plagiado a melodia de “Mulheres”, composição que ficou famosa na voz do Martinho da Vila. Contam os faladores que o processo corre de vagar, é de vagar, é de vagar, é de vagar, de vagarinho…

Ultimamente, e sempre menos importante, discute-se a “positividade tóxica”. De fato, o que a gente não mostra nos stories não deixa de existir, continua afetando a nossa vida. Represar sentimentos e escondê-los, inclusive de nós mesmos, para que não apareçam na “publi”, é inútil, infantil e prejudicial à saúde. Do Nietzsche: “Também vós, para quem a vida é furioso trabalho e desassossego: não estais muito cansados da vida?”. Ultimamente eu ando um pouco, sabe…

Classe Cordial

“… é por isso que eu preciso que vocês se levantem que abram os olhos e façam alguma coisa!”.

Espetáculo sublime, profundo e sensível!

O vídeoteatro, protagonizado pela inquieta Deborah Finocchiaro, dirigido por Jardel Rocha e com dramaturgia de Thiago Silva, fez sua estreia ontem e fica disponível (https://youtu.be/NTg1vdG8r1A ) em temporada que segue até o dia 14 de setembro.

O projeto, que foi viabilizado pela Lei Aldir Blanc, é uma parceria da Coletivo Nômade de Teatro e Pesquisa Cênica com a Companhia de Solos & Bem Acompanhados.

Embora o ponto de partida sejam pesquisas sobre a exclusão de pessoas em instituições manicomiais, a obra acaba por abordar, de modo mais abrangente, outras violências estruturantes da nossa sociedade.

“Estrutura social irregular e autoritária que se esconde sob a face altiva e benevolente”.

Edição, sonoplastia, texto, trilha, iluminação, tradução em libras e uma atuação irreparável dão conta de narrar às histórias de pessoas que escapavam de certos padrões sociais, sendo vítimas de negligências e maus tratos. “Mães solteiras, jovens adolescentes que transavam antes do casamento, prostitutas e toda a sorte de pessoas que não se enquadravam no ‘normal’”, explica o dramaturgo Thiago Silva.

“Se vocês ainda não sabem, eu tô avisando, eu não sou boazinha, eu não sou queridinha, eu não sou mulherzinha, não sou mãezinha, eu não sou nenhum diminutivozinho dessa gramática de horror, essa gramática podre de desrespeito, desumana, desumana, tão desumana…”.

Para a edição do Matinal Jornalismo, Deborah conta que sua interpretação tem mais a ver com incorporar vozes: “É mais um arquétipo ou representação das figuras que vivem esse drama, que têm suas vidas ceifadas por não estarem dentro de um padrão. Qualquer um de nós, dependendo do contexto em que estivesse inserido, poderia ser considerado louco e ser eliminado”.

O nome do espetáculo nos remete ao livro “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, nele o autor traz a ideia de que o povo brasileiro é cordial, amigável, festivo, hospitaleiro e que lida muito bem com as diferenças. A história do nosso país, porém, mostra que, muitas vezes, o lugar do diferente é o distante, o recluso e, de preferência, mudo.

“São as mesmas grades, as mesmas janelas da casa grande… pensam que sabem tudo, que acumularam as melhores qualidades dos seus antepassados, mas não se dão conta de que podem ter acumulado os piores defeitos… Grades são sempre grades, mas uma porta pode ser muita coisa. Muito tempo diante de uma porta fechada e já não sabemos mais a diferença entre uma porta e uma grade”.

Obra pujante, de uma sinceridade que nos acerta feito um tapa na cara da hipocresia. Deborah em sua melhor forma, transborda sua paixão e empresta o seu talento para dar voz aos silenciados pela história.

Sublime! Sublime! Assiste lá e me conta.  

PS: usando fones de ouvido a experiência é mais intensa.

FICHA TÉCNICA

Ideia Original e Dramaturgia: Thiago Silva

Concepção de Encenação e Direção: Jardel Rocha

Atuação: Deborah Finocchiaro

Trilha Sonora Original: Angelo Primon

Iluminação: Everton Wilbert Vieira

Figurinos: Deborah Finocchiaro e Jardel Rocha

Chapéu : Rosina Duarte

Assessoria de pesquisa: Gabriela Touguinha

Tradução para libras: Celina Nair Xavier Neta

Edição e finalização: Jardel Rocha

Produção do projeto: Jardel Rocha

Assessoria de imprensa: Bebê Baumgarten

Parceria cultural: Nômade: Teatro e Pesquisa Cênica e Companhia de Solos & Bem Acompanhados

Apoio: Fundação Ecarta, FM Cultura – 107.7 e Rádio Univates FM 95.1

Quem conta?

Foram os últimos a escrever mil novecentos… nos cadernos de aula. Sabem o que é um bodoque. Conheceram televisão com tubo de imagem. Usaram ficha telefônica em orelhão e ouviram disco de vinil. Tomaram Biotônico para abrir o apetite e óleo de rícino pra curar de prisão de ventre a caspa. Envenenaram mosquitos com a bomba de Flit.

Acham que o homem é o provedor da casa, que a mulher deve se dedicadar aos afazeres domésticos e estar sempre pronta para servi-lo. O prato à mesa, a toalha estendida pro banho a roupa limpa e passada. Estão convictos de que: orientação sexual é frescura; política de cotas é mimimi e sustentabilidade é coisa de bicho grilo desocupado. Querem a volta do Repórter Esso e da Glória Maria. Pensam que os militares estão prestes a salvar o país de uma terrível ameaça comunista.

Eu conto ou vocês contam?

Foram os primeiros a escrever dois mil… nos cadernos, hoje, tablets e celulares. Sabem o que é e para que serve uma scrunchie. Só conhecem telefones sem fio. Usam wifi pra baixar app de música, que escutam em fones via Bluetooth. Tomam Yakult pra reestabelecer a flora intestinal e vacinas preventivas.       

Acham que “baixar a bola” é um aplicativo. Que o mundo se imprimiu da internet. Estão convictos de que os pais não fizeram a última atualização de software. Dispensam os almoços em família, fogem de praças e parques ensolarados, onde tem muita gente de verdade. Precisam de mais seguidores, muitos crushs e amigues virtuais. Querem os games como esporte olímpico. Pensam que o mundo, assim com está, pode ser salvo nas nuvens e reiniciado com upgrade.

Vocês contam ou conto eu?

EX

QUANDO ele VIRAR EX,
a Ema a gemer de gozo, desencava o pescoço pra rir do bozo.
E vai ter festa de índio, de negro, de gay e da sensatez.
QUANDO ele VIRAR EX.

QUANDO ele VIRAR EX,
o imediato alívio do Planeta.
Vai chover água benta pra nos lavar do capeta.
Será um banho de glória.
A esperança é a bola da vez. QUANDO ele VIRAR EX.

QUANDO ele VIRAR EX,
a selva a salvo, a mata e o bicho.
Vai reflorescer todo o verde sobre o legado do lixo.
Vai ser o martírio do falso burguês.
QUANDO ele VIRAR EX.

QUANDO ele VIRAR EX,
a economia aquecida.
Saúde, educação e comida,
quando cair o genocida.
Vitória da humanidade através da ciência,
vai vazar da presidência e dormir lá no xadrez. QUANDO ele VIRAR EX.

Quiçá

Quiçá (adoro, quiçá), em algum momento de 2022…

Na fila do ônibus:

– Oie!

– Oi…

– Desculpa, mas, tu não é aquela moça do Diretão dez prás sete da máscara tigresa com bigodinho?

No caixa do banco:

– Não precisa mais usar máscara, moço.

– Cala a boca e enche bolsa!

Na festa:

– E aí, me conta, Coronavac ou Pfizer?

– Soberana, meu querido!

No bar:

– A vintage (ic), avantage, da bibida, dabebida, é não restringi (ic) nem discriminá (ic) nenhuma dose, nenhumadose!

No estádio:

– Mas esse lateral é pior que variante indiana…

– E o goleiro teve reação à vacina eu acho, com esses bracinhos de jacaré!

Na escola, aula presencial:

Chamada: @leléke; #mumuzim; __Underlineson; Onaruto; PIX456728 …

No caixa do mercado

– Não precisa mais usar máscara, moço.

– Cala a boca e enche a bolsa!

Nas urnas

– Diz aí, teu voto vai ser de protesto, impresso ou digital?

– De exorcismo!

Ei, mãe, gentil

Ei, mãe, não sou bolsomínion

Não é justo que também queira trair meu destino

Você não fez a sua parte e votou no imundo

Que agora acha que é dono, mãe

E com seus danos quer matar você

Proteção do herege

E carguinho de mais o faz enriquecer

Ei, mãe

Já sei do Mourão

Que disse fez tudo por mito e jamais quer que eu vença

Pois somos milhões de filhos

Mas coturno não passa na quebrada

A farda tá pesada, mãe

E quem tá na rua tem que se cuidar

No início vai ser comício

Mas depois você vai se manipular

Ei, mãe, não sou bolsomínion

Não é justo que também queira trair meu destino

Você já fez a pior parte e votou no imundo

Que agora acha que é dono, mãe

E com seus danos quer matar você

Ei, mãe, não sou bolsomínion …

Poder Executivo – 1 vaga

País em subdesenvolvimento busca servidor público para cargo de chefia de Estado com, no mínimo, oito anos de experiência de sucesso comprovada.

O candidato deve ser brasileiro, nordestino, ter anquiloglossia, mais de setenta e cinco anos, e não pode ultrapassar o número total de dezenove dedos.

Reconhecimento no cenário político internacional, capacidade de liderança e resolução pacifica de conflitos, assim como, alto grau de empatia e poder de diálogo direto com todos os extratos da sociedade são vistos como diferencial.

Das responsabilidades e atribuições:

– garantir a vacina para todas, todos e todes os brasileiros;

– coordenar a reconstrução do estado democrático de direito;

– garantir emprego, educação e saúde de qualidade;

– restaurar o orgulho pátrio;

– colocar o país novamente nos trilhos do desenvolvimento econômico e sustentável;

Requisitos e qualificações

Ser humanista, estadista e tratar com respeito a todas as pessoas, independente da orientação religiosa, sexual ou politica. Não representar a Casa dos Bragança, conhecer de perto a pobreza e a miséria, de preferência bilíngue, ou seja, entender e falar a língua do povo e do mercado. Gostar de cachaça, usar barba e/ou bigode.

Informações adicionais

O candidato deve comparecer em TODAS as entrevistas de emprego e possíveis debates, responder pessoalmente e de forma direta sobre qualquer assunto relacionado ao seu plano de atuação em todas as áreas.

Obs: o cargo no momento está mal ocupado.

Início: Out/22

Carga horária: Intensa e ininterrupta.

O interessado que atender aos pré-requisitos deve estar apto a candidatar-se nas próximas eleições e livre de perseguições políticomidiáticas.

Tô me guardando pra quando

Tantos ricos, oh quanta alergia

Mais de mil palhaços sem noção

Coisa-ruim está clamando pelo amor da Cloroquina

No meio da Aglomeração

Foi bom te ver, sensatez

Tá fazendo um ano

Foi no carnaval do terror

Eu sou aquele doutor

Que te orientou

Que te vacinou, meu amor

Sem aquela máscara, querida

Que te protege a vida

Eu quero matar a vontade

Vou beijar-te honrado

Não sou abusado

Estou imunizado

Vou beijar-te honrado

Não sou abusado

Estou imunizado